PL concentra 35 deputados réus ou investigados e acumula histórico de escândalos; presidente do partido tem R$ 119 milhões bloqueados
Por Rubem Gama
Levantamento de 2024 apontava um terço da bancada sob suspeita. Valdemar Costa Neto, condenado no Mensalão, volta ao centro das atenções após decisão do STF.
O Partido Liberal (PL), maior bancada da Câmara dos Deputados e legenda à qual está filiado o ex-presidente Jair Bolsonaro, concentra um número elevado de parlamentares com pendências na Justiça. Em junho de 2024, um levantamento exclusivo do site Congresso em Foco apontou que pelo menos 35 deputados federais do partido — o equivalente a cerca de um terço da bancada de 95 parlamentares na época — eram réus em ações penais ou estavam sendo investigados em inquéritos.
O levantamento foi realizado a partir de consultas públicas a portais do Supremo Tribunal Federal (STF), Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Tribunais Regionais Federais e tribunais de justiça estaduais. Segundo o Congresso em Foco, pelo menos 13 desses deputados tinham processos no STF, incluindo o Inquérito das Fake News. Outros respondiam por suspeitas relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023, crimes contra a honra ou irregularidades eleitorais.
Entre os nomes confirmados publicamente como parte do grupo estavam Carla Zambelli (PL-SP), Bia Kicis (PL-DF), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Dois parlamentares se destacavam pelo volume de processos: Gilvan da Federal (PL-ES) e Júnior Lourenço (PL-MA), cada um com ao menos dez ações ou investigações, segundo o mesmo veículo.
O Congresso em Foco ressaltou, na época, que a condição de réu ou investigado não equivale a culpa. Inquéritos podem ser arquivados e ações penais podem resultar em absolvição.
O presidente do partido e o bloqueio de R$ 119 milhões
O histórico de investigações e condenações do PL não se limita à bancada. O presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, acumula um dos passados judiciais mais conhecidos da política brasileira.
Condenado em 2012 no escândalo do Mensalão a 7 anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Costa Neto foi um dos principais envolvidos no esquema de compra de apoio parlamentar no primeiro governo Lula. Também foi citado na Operação Lava Jato e, em fevereiro de 2024, foi preso pela Polícia Federal por posse ilegal de arma.
Em julho de 2026, o ministro do STF Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar Costa Neto. A decisão faz parte da Operação Transparência, que investiga um esquema de direcionamento irregular de emendas parlamentares na Câmara dos Deputados. Segundo a Polícia Federal, mesmo sem mandato, o presidente do PL teria influenciado a indicação de verbas por meio de uma estrutura paralela, com participação de servidores da liderança do partido na Casa. Ele é suspeito de desvio de recursos públicos e associação criminosa.
Condenações recentes por emendas
Em março de 2026, a Primeira Turma do STF condenou dois deputados do PL e um suplente por corrupção passiva em esquema de desvio de emendas parlamentares. Josimar Maranhãozinho (PL-MA) recebeu pena de 6 anos e 5 meses de prisão; Pastor Gil (PL-MA), 5 anos e 6 meses; e o suplente João Bosco da Costa (PL-SE), 5 anos. Todos em regime semiaberto. O colegiado acatou denúncia da Procuradoria-Geral da República sobre cobrança de propina para liberação de recursos.
Contexto e repercussão
O PL, que se apresentou nos últimos anos como partido de combate à corrupção e alinhado ao bolsonarismo, carrega um histórico que inclui participação no Mensalão (2005), citações na Máfia das Ambulâncias e, mais recentemente, investigações envolvendo emendas parlamentares e atos antidemocráticos.
Especialistas ouvidos em reportagens sobre o tema apontam que o volume de parlamentares sob suspeita e o envolvimento do próprio presidente da legenda alimentam críticas sobre a coerência do discurso anticorrupção do partido. Por outro lado, defensores do PL argumentam que muitos processos têm motivação política e que a legenda é alvo prioritário do sistema de Justiça.
A situação processional de cada deputado pode ter se alterado desde o levantamento de 2024, com arquivamentos, novas denúncias ou condenações. A lista completa dos 35 nomes, com detalhes de cada processo, foi publicada originalmente pelo Congresso em Foco, mas não está integralmente disponível em fontes abertas de acesso irrestrito.
O número do partido nas urnas é o 22. Em ano eleitoral, o volume de investigações e o bloqueio de bens de seu presidente nacional tendem a ser usados tanto por adversários quanto por aliados na disputa narrativa sobre honestidade e combate à corrupção.
