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Os caminhos tortuosos para a regulamentação da IA nos EUA


A corrida para regulamentar a inteligência artificial nos Estados Unidos está se tornando cada vez mais caótica.

Enquanto os modelos de IA evoluem rapidamente e apresentam comportamentos inesperados, Washington enfrenta guerras de território, falta de consenso e lentidão legislativa.

A situação levou especialistas a comparar o momento atual com os primeiros dias da pandemia de Covid-19.

Em maio, o Centro de Padrões de IA do Departamento de Comércio dos EUA (CAISI) anunciou acordos com Google, Microsoft e xAI para ter acesso antecipado a modelos poderosos de inteligência artificial antes de seu lançamento público.

Dias depois, o anúncio foi silenciosamente removido do site da agência a pedido da Casa Branca, que alegou conflito com uma ordem executiva que o presidente Trump planejava assinar.

O momento “Jurassic Park”

Em julho, a OpenAI revelou que um sistema avançado de múltiplos agentes escapou do ambiente de laboratório durante testes e invadiu o sistema de outra organização.

Em seguida, laboratórios como Anthropic e Meta relataram incidentes semelhantes.

O episódio foi comparado ao filme “Jurassic Park”, quando os velociraptores escapam do cercado, e ao monstro de Frankenstein.

Regulação sem rumo claro

O Congresso americano debateu, mas não aprovou nenhuma legislação abrangente sobre regulação de inteligência artificial.

Dentro do Executivo, não há consenso sobre quem é responsável pela supervisão do setor.

O presidente Trump adotou inicialmente uma abordagem de intervenção mínima, mas o cenário começou a mudar no início de 2026, quando agentes de IA complexos deixaram de ser novidade e passaram a ser amplamente utilizados.

Anthropic e o modelo Mythos

Em abril, a Anthropic afirmou que seu novo modelo Mythos era avançado demais para ser lançado publicamente, especialmente por sua capacidade de identificar e explorar vulnerabilidades de cibersegurança.

O Departamento de Comércio respondeu com um embargo de exportação, forçando a empresa a retirar o modelo.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca pediu à OpenAI que liberasse seu modelo mais avançado apenas para parceiros aprovados pelo governo.

Ambas as empresas contestaram as medidas, e os conflitos foram eventualmente resolvidos.

Disputa de poder em Washington

Diversos órgãos disputam protagonismo na supervisão da inteligência artificial: o Escritório do Diretor Nacional de Cibersegurança, o Departamento de Comércio, o Tesouro e o Pentágono.

Parte da indústria acredita que o CAISI, com sua expertise técnica e acordos já estabelecidos, deveria ser o ponto central de contato do governo com as empresas de IA.

No entanto, após ser instruído a apagar o anúncio de maio, o CAISI também foi orientado a reduzir sua comunicação pública e a se afastar de reuniões interagências.

O CAISI conta com menos de 15 milhões de dólares em financiamento anual e uma equipe de cerca de 30 pessoas.

Seu equivalente britânico, o AI Security Institute, foi lançado em 2023 com orçamento muito maior e três vezes mais funcionários, sendo amplamente reconhecido como líder global em testes de IA.

A indústria pede ação

Mais de 1,3 mil funcionários das principais empresas de tecnologia assinaram uma carta aberta pedindo ao governo que crie ferramentas para desacelerar o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial, com apoio dos CEOs da Anthropic e da OpenAI.

Líderes do setor, como o fundador da Microsoft, Bill Gates, alertam que a IA precisa de limites significativos para que os benefícios superem os riscos.

“Existe uma chance de 20 a 30% de que os métodos atuais de alinhamento e controle falhem antes de alcançarmos uma IA amplamente super-humana”, disse Paul Cristiano, ex-funcionário da OpenAI e ex-assessor técnico sênior do CAISI.

Apesar da confusão, há sinais de avanço. Pelo menos dois projetos de lei bipartidários sobre segurança e regulação de inteligência artificial estão tramitando no Congresso.

Brad Carson, ex-congressista e atual líder do super PAC bipartidário Public First, prevê “legislação importante sobre IA nos próximos oito meses”.

“Estou mais otimista do que estive nos últimos dois anos”, afirmou Carson.

A situação, porém, ainda é descrita como urgente por especialistas. “Isso parece os primeiros dias da Covid”, disse Joshua Saxe, ex-especialista técnico sênior em segurança de IA da Meta.

“Há uma atmosfera de emergência que é apropriada aqui.” Para Saxe, os modelos de fronteira atuais devem ser tratados como materiais perigosos, com padrões de testes governamentais estabelecidos.



Por CNN Brasil

Rubem Gama

Servidor público municipal, acadêmico de Direito, jornalista (MTB nº 06480/BA), ativista social, criador da Agência Gama Comunicação e do portal de notícias rubemgama.com.br. E-mail: contato@rubemgama.com.br

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