Ordem para limitar satélites da Ucrânia partiu da Casa Branca, diz fonte
A ordem para limitar um sistema de satélites utilizado pela Ucrânia para comunicações no campo de batalha e operações com drones partiu de dentro da Casa Branca, segundo duas autoridades dos EUA e uma autoridade ocidental a par do assunto.
As autoridades informaram que dirigentes do Departamento de Defesa receberam a orientação de que o serviço Starshield, da SpaceX — voltado para as forças armadas ucranianas —, deveria ter seu desempenho reduzido.
As fontes, que falaram sob condição de anonimato, não especificaram quem, na Casa Branca, tomou a decisão ou quem foi responsável por implementar a ordem. O Pentágono é o maior cliente do Starshield, que consiste na versão de uso militar do serviço Starlink.
Autoridades ucranianas relataram, nesta semana, que os receptores Starlink de uso militar pararam de funcionar na Ucrânia quando instalados em objetos que se deslocam em alta velocidade. Isso prejudicou o desempenho de drones ucranianos que dependem desses dispositivos para seus sistemas de orientação a bordo durante operações em território ucraniano.
Um representante do Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou, nesta quinta-feira (15), que os receptores voltaram a funcionar durante o deslocamento, mas apenas em velocidades de até 100 milhas por hora (160 km/h).
EUA pressionam Ucrânia por ataques a refinarias
A medida para restringir temporariamente o sistema de comunicações — vital para as operações — ocorre em um momento em que o presidente Donald Trump tem pressionado Kiev a interromper os ataques contra refinarias russas. Trump atribui a esses ataques a alta nos preços da energia, o que, segundo ele, prejudica as perspectivas do Partido Republicano nas eleições de Meio de Mandato (midterm) em novembro.
No entanto, especialistas apontam que o aumento nos custos de energia decorre, principalmente, do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã — cenário que resultou em ataques iranianos a instalações energéticas e no bloqueio, em grande parte, do estratégico Estreito de Ormuz.
Em resposta a um pedido de comentário sobre a ordem de limitar o Starshield, uma autoridade de alto escalão do governo dos EUA declarou: “Nunca houve tal solicitação por parte do presidente”.
A Casa Branca não respondeu a perguntas sobre se outros integrantes da administração poderiam ter feito o pedido.
O Starshield foi desenvolvido pela SpaceX especificamente para clientes governamentais e do setor de segurança nacional, com destaque para o Departamento de Defesa dos EUA. O sistema utiliza a constelação Starlink como sua infraestrutura base.
Segundo autoridades ucranianas, as restrições dificultaram missões de ataque contra forças e a logística russas em territórios ocupados, além de terem prejudicado a operação de drones interceptadores, utilizados para abater drones russos do tipo Shahed.
Elon Musk, CEO da SpaceX, afirmou no X, na quarta-feira (14), que, como os sistemas Starshield são de propriedade e controle do governo dos EUA, quaisquer limitações de velocidade ou uso são determinadas pelos militares americanos ou pelo presidente.
A SpaceX não respondeu a um pedido de comentário.
O Departamento de Defesa e a embaixada da Ucrânia em Washington também não responderam a pedidos de comentário.
Deterioração nas relações
As relações entre Kiev e Washington se deterioraram nos últimos dias, após uma reunião em Miami, no dia 9 de outubro, que reuniu representantes de ambos os países, bem como da Europa e do Banco Mundial.
Jared Kushner, genro de Trump, e Steve Witkoff, enviado da administração Trump para o Oriente Médio, adotaram um tom rígido com a Ucrânia durante a reunião, segundo uma fonte a par do assunto. Eles informaram às autoridades ucranianas que os EUA estavam frustrados com os ataques contínuos de Kiev a refinarias russas, apesar dos repetidos pedidos de Washington para que cessassem.
A delegação americana também explicou a decisão de Washington de firmar um acordo sobre diesel com a Rússia, afirmando que a Casa Branca esperava que isso suavizasse a postura de Moscou em relação a negociações de paz.
O acordo — pelo qual a Rússia fornecerá mais de 2,25 milhões de barris de diesel aos mercados dos EUA e global — provocou reações negativas de alguns legisladores americanos. Eles argumentam que a medida fornecerá recursos financeiros a Moscou para continuar a guerra, sem forçar o presidente russo, Vladimir Putin, a fazer concessões para encerrar o conflito.
Nos dias que se seguiram, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e Trump trocaram críticas; Zelensky classificou a decisão dos EUA sobre o acordo de diesel russo como “fraca”, enquanto Trump defendeu a realização de eleições na Ucrânia e a saída de Zelensky do poder.
Nos bastidores, autoridades americanas ameaçaram interromper o fornecimento de informações de inteligência a Kiev sobre lançamentos de mísseis russos — dados que a Ucrânia utiliza para neutralizar ataques —, conforme noticiado anteriormente pela Reuters. Na terça-feira (13), Trump afirmou que Washington continuava compartilhando informações de inteligência com a Ucrânia.
Após a restrição ao acesso da Ucrânia ao Starshield, autoridades ucranianas buscaram, na terça e na quarta-feira, esclarecimentos junto a altos funcionários da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono.
Segundo uma autoridade ucraniana de alto escalão, Kiev foi informada de que a decisão partiu da Casa Branca.
O Pentágono gastou bilhões de dólares nos serviços Starlink e Starshield. A instituição também adquiriu satélites Starshield dedicados, incluindo espaçonaves de comunicação para missões de alerta de mísseis e uma constelação de espionagem para o National Reconnaissance Office, informou a Reuters em 2024.
